Prata da Casa – Lika Marques

Conheci a Lika Marques há quase 10 anos, tocando numa Killa Byte aqui no Trackers, em salas improvisadas que no futuro viriam a ser a pista preta. Levei umas viradas pra entender, quase não gostei do som dela de saída – pensei que ela estava errando, totalmente fora do 4×4 convencional, parecia Jazz. Ela fazia tudo com um sorriso no rosto, focada e com a mão direita num imobilizador de pulso. Fui correndo falar com ela – Até hoje eu só tinha visto o Nedu Lopes virar assim, você e a minha DJ favorita desde já!

E de lá pra cá vi ela tocar em muitas festas por aqui, fora daqui, em aulas de discotecagem, eventos… eu considero virtuose, embora ela modestamente vá sempre negar e dizer que não pratica o suficiente por falta de equipamento.

Conversamos muito nos últimos anos, é uma das pessoas com quem mais gosto de “brigar” em intensas discussões sobre música e discotecagem. Conversamos por email durante a semana passada e entre as batalhas de robôs na sua nova festa, Electro Funk Force, que trouxe brechó de roupas Adidas típicas da cultura electro funk e DJs do calibre do Rodz.

J – OI OI Lika! Te conheço há tanto tempo, sou seu fã declarado, mas quando se pesquisa mais à fundo, sempre se descobre coisa nova! Como foi que convenceram o Raul Gil a deixar rolar um megamix no palco do Você é o Show??

LM – Ai Jesus!  (risos) Não sabia o que fazer naquela joça pro povo se identificar… fiz uns mashups véio!

J – Foi sensacional, acho que nunca ouviram isso em programa de auditório!

LM – Pra mim foi horrível, umas dez horas esperando pra gravar três minutos. To de boa! Trampo mais brega da vida (risos)

J – Até recentemente não tinha idéia que voce também cantava – qual é a tua formação musical?

LM – Só sou curiosa nego, formação nenhuma

J – Mesmo? mas voce fez umas faixas tão boas.  Canta bem e  afinado! Jura que não estudou?!

LM – Valeu! Não estudei, mas deveria.

J – E o que te atraiu pra música? Lembra do primeiro som que te chamou a atenção?

LM – Sim (risos)… então, influências… minha primeira memória musical é a panela de pressão!

J – A válvula faz um som de chimbal de electro sujo!

LM – Ficava dançando na frente do fogão! (risos) O lance foi logo quando aprendi a andar.

J – Que aconteceu daí em diante pra se ligar na cultura de DJ ?

LM – Comecei a tocar meio que por curiosidade. Curti a idéia de misturar musica criando algo bonito no meio…mas lembro que fiquei meio maluca na pré adolescência porque sempre imaginava outra musica em cima da que eu ouvia! Mixava na mente!

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J – Um vez voce comentou que ainda nao tinha seu proprio equipo, como voce começou a tocar?

LM – Ah, contato com equipo profissional veio nas barracas de som que um amigo montava na Cohab, o pai dele trouxe umas MK3 do Japão, a gente levava uns piratinhas e fazia o som na quermesse, festinha do bairro, era muito bom! Antes disso eu só tinha tocado com as BD250, CCE que era bem foda na época, tinha pitch.

J – E que tipo de som começou a tocar?

LM – Era 90, som pesado… gostava de Hip Hop, Trip Hop, Hardcore… jogava umas acapellas doidas da Disney, ou do que tivesse disponível no meio – mas já era tudo quebrado!

J – Então você ja começou em club! Achei que tinha começado com Hip Hop puro na rua – acho que voce tinha me contado sobre tocar em eventos de B-boys.

LM – Comecei no bairro, fui pra club tipo um ano depois.

Recebendo o prêmio de DJ Revelação 95, do próprio Mau Mau

Recebendo o prêmio de DJ Revelação 95, do próprio Mau Mau

J – Entendi! Eu acho a tua levada bem única e pessoal, que DJs te influenciaram nesse estilo?

LM – Valeu, isso é bem especial pra mim, até por que, o que me inspirava e inspira até hoje são os desenhos das batidas, as harmonias que pegam no estômago, desconstruir e tentar umas coisas da minha cabeça… fui descobrindo os DJs com o tempo e a maioria que me inspira, teve base no Hip Hop

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J – Do Hip Hop nacional?

LM – Gringos

J – Eram bem técnicos…

LM – Sim, acho que dominar uma técnica te da uma certa liberdade pra criar algo bonito. O acaso também pode trazer isso mas não é a regra.

J – Tambem acho, por isso que so me aventurei a me chamar de DJ depois de uns 20 anos tentando entender o básico!

LM – Sim, quem não tem base técnica é seletor! O que é válido pra caralho mas não anula o outro.

J – Eu faço distinção também, especialmente quando todo mundo se chama de DJ. Acredito que a mixagem é uma forma de expressão muito complexa e pessoal e nesse caso, mesmo uma seleção dita banal pode ter uma releitura absurda, como nos campeonatos, por exemplo! Você é tão técnica, chegou a competir?

DJ para Turbo B do Snap!

DJ para Turbo B do Snap!

LM – Nunca participei de campeonato sério, isso exige uma prática monstra, disponibilidade e acesso a equipo…o mais perto que cheguei foi fazer umas turnês pra DMC na metade dos anos 90 mas eram festas, não champs. Respeito demais quem se dedica ao turntablismo, se um dia eu entrar nesse circuito, é porque tenho certeza que tenho algo pra somar aí!

J – Eu entendi tudo errado de nossas conversas! (risos) Achei que voce tinha viajado por conta de campeonatos.

LM – Viajei muito pelo Brasil de 92 a 2002, tocando em tudo o que é tipo de evento. Saí do Brasa em 2002.

J –  Melhor momento na Gringa?

LM – Vixe foram vários…as warehouses do Sul de Londres, a residência na NORQ! em Londres também, as festas eram sempre foda… teve uma rave na Espanha que foi bem louca –  mas sou tão lesada com divulgação – existe um processo interno – que dificilmente lembro os nomes! Mas se eu fuçar na net acabo achando!

J – Vou procurar essa Norq.

LM – NORQ! Tem a exclamação! (risos) Passou por lá o Jay Cunning, o John B.

J – John B. é um dos meus favoritos no D&B desde sempre! Como DJ e intérprete você teve a chance de conhecer vários dos seus ídolos. Qual foi o momento mais marcante?

LM – Jimmy Bo Horne, sem sombra de dúvida! Trabalhei duas vezes com ele, o cara é um nobre!

Entre Beverly Kelly e Jimmy Bo'Horne

Entre Beverly Kelly e Jimmy Bo’Horne

J – Imagino! Dance across the floor deve estar no seu top ten tambem!

LM – Aprendi muito com ele. Gosto muito da Spank e da Is it in.

J – Você sempre foi da quebradeira, Phat Breaks, Amen Brothers, qual é a estória com essa banca da festa nova, Electro Funk Force?

LM-  É que o meu parceiro de cabine na Amem Brothers da Igrejinha, me apresentou para um amigo, o Maurício Yorinobu, que fazia a Boom Beats junto com ele. Como o Maurício é popper, juntei a fome com a vontade de comer, já tava meio irritada de ver a galera nova chamar um braço da EDM de Electro Funk, então vi a oportunidade de resgatar o estilo com nobreza, ao invés de ficar reclamando e xingando os novinhos sem referência!

J – Obrigado por fazer a sua parte! Eu nem sabia o que significava popper até então!

LM – Então, dai chamei o Plaça pra dar um embasamento histórico com a pesquisa linda dele. Ele é um pesquisador musical fudido, e geógrafo. Precisamos de gente assim no processo.

J – Tá sensacional, Muito boa sorte com o projeto!

Niki Nixon

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