Prata da Casa – Marcio Gibson

Todas as entrevistas para essa coluna Prata da Casa até hoje, foram apenas com DJs, mais especificamente de música eletrônica de pista, que afinal, foi como tudo começou aqui no Trackers –  desde as aulas até as primeiras festas. Isso em parte vem do meu próprio histórico e  gosto pessoal, mas um empreendimento que se pretende multidisciplinar não pode se restringir! Nas noites de quarta, por exemplo, o Trackers já apresentou muitos happy hours onde a trilha é apenas Jazz, com o DJ Rubens “cafezinho” Peterlongo no lounge e música ao vivo na pista preta, incluindo noites dedicadas apenas ao improviso – quase sempre com músicos estrangeiros de renome na cena de improvisação livre.

Antes de continuar, seria oportuno confessar que minha educação pode parecer enciclopédica quando se trata de subgêneros eletrônicos ou rock obscuro. Mas é muito aquém do básico em jazz e variantes, então nunca tive muita sensibilidade para apreciar esses happy hours de quarta feira… até uma certa noite de verão há uns poucos anos.

Eu estava trabalhando na sala de aula durante a festa, desci para buscar uma cerveja e logo me vi numa das inevitáveis conversas sobre videogames com o Henrique do caixa no corredor. O improviso acontecia no lounge e num certo momento, a bateria em especial, chamou a minha atenção. Dentro das poucas referências que acumulei sobre o gênero, me soou como alguma coisa saída do Time Out do Dave Brubeck Quartet – tive que conferir pessoalmente.

E lá estava um trio de improviso, um tecladista bartokiano com a postura mais elegante e entregue que já vi alguém dedicar a um instrumento, em pé, obviamente. Contra-baixo tenso e sincopado e o Marcio Gibson na bateria de 3 peças, incluindo um prato amassado. Marcio tocava de olhos fechados, num transe aparente. Aos poucos, o ritmo a que submeteu o prato, foi afrouxando o parafuso que o prendia ao suporte e os dois foram ao chão. SEM abrir os olhos direito e sem perder o ritmo, Marcio continuo a tocar, batendo no prato, erguendo o prato com as baquetas com um ritmo de levitação magnética e apenas com as baquetas encaixou o prato no suporte novamente, sem parar de tocar. Fiquei impressionadíssimo com essa demonstração de genialidade e resolvi prestar mais atenção em seu trabalho.

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Ficamos amigos com o passar do tempo e consegui alguma intimidade para uns anos depois, pedir a sua ajuda num concurso de remix de uma faixa de hardcore eletrônico – do produtor holândes Kasparov – Infected by Madness. Mostrei o som apenas uma vez pra ele, que começou a improvisar com uma controladora Akai MPD, com 16 pads, mas sem conhecer as peças que eu havia mapeado nessa controladora MIDI – gravei o que pude de seu frenesi animado com as baquetas, mãos livres e pura alegria a 180 BPMs. Fomos todos para uma festa e deixei o programa aberto na sala de aula. No dia seguinte, fui conferir a gravação e devo ter feito a mesma cara de espanto que a esposa do personagem do Jack Nicholson fez quando encontrou o resultado de dias de trabalho em seu romance em “The Shining” do Stanley Kubrick – como era possível? – pensei eu – que um ser humano pudesse acertar todas as batidas na grade? 180 BPM no improviso divertido, e ele acertou cada batida nas linhas de tempo exato da grade. Mental!!!

Essa é uma estória que conto pra todo mundo que aparece procurando aulas de bateria por aqui. Quando confronto o Gibson com sua performance absurda, ele só dá risada e se justifica… “Mas o software tinha metrônomo!”

Nem vou mencionar a sua habilidade igualmente precisa como pugilista, refinada por anos de treino de boxe, porque teríamos estórias pra mais outras entrevistas longas. Mas decidi que já tinha passado da hora de entrevistar o nosso baterista “go for it” quando vi uma turma de quase vinte estudantes da Noruega que vieram para o Trackers exclusivamente para um workshop de três dias sobre improvisação com o Marcio.

Journal: De onde vem essa habilidade sobre-humana com o ritmo?

Márcio Gibson: A técnica é uma coisa que busquei bem depois.  Eu achava que era uma coisa acadêmica, tá ligado? Que nem a pintura, você tem aquela coisa com a realidade, acadêmica, eu não gostava muito. Gosto de coisas mais abstratas como Jackson Pollock. Eu tinha uma concepção que a técnica não servia pra nada. Depois eu descobri que tava errado. (risos)

J: O que te fez mudar de idéia sobre isso?

MG: Foi em 2012, era o ano do Brasil na Holanda e os organizadores tavam selecionando músicos pra fazer um concerto lá. Mandei material pra eles e se passaram uns três meses sem resposta e pensei – “Já era, não vai rolar!” – aí recebi um email dizendo que eu tinha sido selecionado, ia ter passagem, mais uma verba pra comer e morar por lá.

J: Da hora!

MG: Quando cheguei lá, pensei – “Porra mano, aqui todo mundo tem técnica!”. Percebi que estava um pouco equivocado. Imaginei onde ia arrumar técnica rápido. Aí eu pensei no exército americano. Os caras dividiram o átomo e fizeram a bomba atômica, quer bagulho mais técnico que esse? Aí comecei a pesquisar em sites as partituras de caixas do exército americano.

J: Eu lembro de você estudando isso por aqui, até me ensinou a ler!

MG: É, mas isso eu descobri lá, uns dias depois, achei um negócio que era mais ou menos assim (e toca um ritmo complexo na mesa em que estou entrevistando ele – infelizmente a qualidade da gravação não tá digna de figurar aqui) e fiquei praticando isso até o dia da apresentação.  Depois do concerto, o Michael Vatcher, que é um cara super habilidoso, toca de todo o jeito sem fazer esforço, veio falar comigo, e eu disse pra ele – “Cara, você tem uma técnica absurda, como é que desenvolveu isso?” Aí ele tirou uns papéis do bolso, era um esquema de partituras com roldanas, onde você tinha vários caminhos. Eram quatro pontos marcados, embaixo à direita o pé direito, embaixo à esquerda o pé esquerdo, em cima à direita a mão direita e o outro ponto, a mão esquerda. Você acabava um caminho, virava o papel e invertia os pontos. Tinha vários ritmos, uns 12 por 8, fui treinando isso.

J: Legal poder conhecer esses músicos pessoalmente e descobrir as suas referências.

MG:  Toquei também com o Han Bennink, Wilbert de Joode, Ane la Berge, Bart van der Putten, Jasper Stadhouders, John Dikeman, Marie Guilleray, Alfredo Genovesi, Mikael Szafirowski em outros concertos que fiz lá na Holanda.

J: Tudo isso nessa semana do Brasil?

MG: É que quando acabou a semana, me perguntaram pra quando eu queria a passagem de volta, pedi pra marcarem pra dali uns 3 meses, assim eu ia arrumando uns trampinhos e tocando pela Europa, que de Amsterdam é tudo pertinho.  Em Londres fui tocar no Summer Festival, onde tem concertos num monte de lugar, museu, fazenda, rolando durante o dia inteiro.

J: Sei, é tradicional!

MG:  Aí tinha um concerto com um amigo meu, que tinha que levar a bateria pro outro lado da cidade, na Workhouse que era uma casa de shows, quem me chamou foi meu amigo Veryan Weston, que tinha me encontrado naquela semana brasileira na Holanda. Eu já tinha visto ele tocando três vezes no Brasil e eu tinha perdido. Quando ele me encontrou na Holanda me convidou pra passar o mês de Outubro na casa dele que não ia ter tour naquele mês.

J: E marcaram gigs pra tocar juntos.?

MG: Logo no primeiro concerto o bagulho ficou sério – ia tocar com o próprio Veryan Weston, além do Frank Charlton e  Moshi Honen, e vi que ia precisar estudar mais. Eu tinha visto um moleque tocando na Holanda e perguntei se ele era inglês. Ele disse – Sou sim, como é que você sabe? Respondi que ele tinha uma puta técnica, todos os bateristas que vinham de lá tinham essa característica. Perguntei o que eles faziam pra serem tão bons. Aí ele me deu uma técnica chamada wrist control – tirei uma xerox e fiquei estudando com o metrônomo, vários andamentos diferentes, continuo fazendo isso até hoje.

J: E seus anos de punk rock sem técnica?

MG: Então, eu acho que a técnica não pode ser o principal, é só uma ferramenta. Punk, meu…. ainda mais aqui, na America do Sul, terceiro mundo, tem que ter o punk podre mesmo.

J: Qual era o nome da sua banda?

MG: Eu tive várias, nem lembro o nome agora, desde 93, 94… peraí … Conflito Social! Mas eu ouvia de tudo, Heavy Metal, Punk Rock, MPB, Jimmy Hendrix, Funk – gostava bastante de todo o tipo de música, desde moleque.

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J: Eclético!

MG: Mas eu gostava mesmo era de punk rock, o primeiro disco que eu ganhei foi do Garotos Podres, em 85. Eu fazia teatro com a minha mãe, um camarada nosso me deu e aí eu ouvi essa parada de Papai Noel… como é o nome dessa música?

J: Acho que tem duas versões – Papai Noel Filho da Puta, ou velho batuta pra rádio (risos)

MG: É, os da Anarquia OI! Tinha um sebo de discos perto da minha casa, eu ia uma semana andando a pé pra escola e economizava cinco mango, aí comprava vinil lá  Aí comecei a comprar tinha um monte de som, comecei com Cólera, Olho Seco, Invasores de Cérebros… mas eu ouvia bastante coisa, Rush, Napalm Death

J: E como foi o caminho do punk pra esse improvisação tão técnica?

MG:  Até então eu tocava guitarra nessas bandas punk, depois fiz um triozão com influências de Heavy Metal, aí eu quis estudar bateria, fui ter aula com um cara chamado Duda Neves, fiquei uns três anos tendo aula lá, no segundo já comecei a trabalhar com ele, tinha aula de graça, podia estudar bateria… e ele me mostrou um livro que chamava “The Art of Bebop Drum” que era um livro de Jazz, que eu sempre gostei de ouvir, mas nem sabia como tocar, aí fui estudar e vi que era bem diferente, comecei a me interessar mais, fazia uns downloads do som que tava rolando em Nova York.

J: O que te interessava mais no Jazz?

MG: Eu já gostava da liberdade de improviso que o Jazz explorava, pra mim isso teve o auge no John Coltrane, que foi um cara que fez tudo, muito livre sempre – depois que ele morreu, teve uma onda de Jazz-Fusion, a partir de 73, que era um híbrido com rock, que era uma coisa mais fechada.

J: Sei, eu conheci o som do John McLaughin nessa época, quando era criança – na minha percepção aquilo era parente do rock progressivo, tipo um jazz progressivo! Mas eu achava legal.

MG: Era legal pra caramba, mas era bem menos livre, não seguia a evolução do Jazz de procurar cada vez mais liberdade no improviso. Aí conheci o som de um trompetista europeu chamado Kenny Wheeler, coloquei o nome dessa cara na Amazon e vinha um monte de similares e aí descobri que europeu fazia jazz, comecei a baixar esses músicos europeus, era diferente esse som! Cada grupo tinha um som muito próprio e também muito livre, tinha cara que tinha formação de jazz, cara que vinha do punk rock.

J: E quando começou a tocar usando essas influências?

MG: Foi mais ou menos em 88, 89, eu tinha visto um baixista muito bom o Célio Barros, fazendo umas leituras de Tom Jobim, que ganhou o prêmio Visa. Pensei – “Tem tanto baixista no Brasil, preciso trombar esse cara!” – mas não tinha facebook, não tinha nada na época, então até eu encontrar com ele levou um ano e seis meses.

J: Tempos difíceis quando ainda existia privacidade…. (risos)

MG: Aí acabei conhecendo meio sem querer, tinha um guitarrista que tocava comigo, o Marcel Amaral, que também é advogado e foi o responsável pelo fim da obrigatoriedade da carteirinha da OMB, ele me levou pra uma jam session com o Célio e outros músicos e foi a minha primeira experiência com esse tipo de improviso. Aí descobri que a gente morava bem perto, ele tava no Campo Belo e eu morava no Brooklym bem perto da Espraiada…

J: Então éramos vizinhos! Amo esse lugar, morei muitos anos lá na casa dos meus pais, que ainda estão no bairro  até hoje!

MG: Aí ferrou, o cara tinha estúdio lá, a gente tocava direto, trocava idéia sobre música… um puta de um baixista!

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J: E daí você partiu pra improvisação livre?

MG: Eu tava com 22 anos, tinha que pagar aluguel… deixei a música como hobby e fui trabalhar numa gráfica. Ganhei uma grana quando eles recusaram um serviço grande pra imprimir um monte de manuais, comprei as máquinas e resolvi fazer eu mesmo, como sou meio workaholic e muito focado, fiquei uns dois anos fazendo só isso!

J: E quando voltou pra música?

MG: Um dia eu tava na copiadora e falei pra mim mesmo – “Meu, onde você quer estar daqui a cinco anos?” Eu me respondi que ia querer estar tocando, viajando pra tocar com outros músicos, e imaginei que num futuro podia estar nesse trabalho ainda, me perguntando – “Porque eu não tentei!?, Porque eu não tentei?!” Tá ligado?

J: É o que me pergunto todos os dias! (risos)

MG: Voltei a tocar e depois de um ano e meio rolou esse lance da viagem pra Europa. Lá os caras vivem daquilo, dá pra ganhar só com improvisação na Europa.

J: E essa molecada da Noruega que veio ter aula com você? São super talentosos, de onde veio esse contato?

MG:  O camarada da Noruega que me indicou pra eles é o Paal Nilsen-Love. conheci ele a primeira vez aqui quando abri um concerto do Frode Gjerstad trio que é o Paal Nilssen-Love na bateria, o Jon Rune Strøm no baixo acustico e o Frode Gjerstad, nos clarinetes e sax alto. Na Holanda eu toquei três vezes com o Han Bennink, um puta baterista que começou a impro nos anos 60. Ele tocou no Brasil umas três vezes também e o pessoal dessa escola, que é bem especial, é tipo um colegialzão de quatro anos com uns três cursos, fotografia, pesca e jazz, pediu pra ele uma indicação de workshop de improviso no Brasil e ele me sugeriu, aí resolvemos fazer no Trackers, já é o segundo ano que trazem uma turma de lá.

J: Bem legal!  Só me resta te perguntar – quais os planos pro futuro?

MG: Fácil… tocar, tocar, tocar!

J: É isso aí! Go for it!

 

Niki Nixon

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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